• Manoel Cândido Nogueira

UNIVERSO DRAG: "Você pode ser o que você quiser"


Aya Fernandez e Luna Lyon posam após mais de 3 horas de produção

O universo Drag Queen é a pluralidade da arte manifestada em seus traços, e tem cada vez mais ganhado adeptos em todo o mundo, chegando, inclusive a ser tema de programa nos Estados Unidos. Mas ainda é preciso muito tempo para que certa parcela da sociedade fique ciente que se montar também é arte. Para Aya Fernandez (21), drag queen é “ser você e ser mais alguém que você idealiza”. Enquanto isso Luna Lion (22) complementa que “drag é ser bonita, como eu (risos)... é ser feliz e mostrar um outro lado de você, mostrar uma personalidade”, é manter sua origem e a personificação da sua essência, mas também saber explorar a arte e inovar em suas performances.


Drags, estudantes, trabalhadores e felizes. Quando se montam, transpassam a sensação de liberdade em ser quem desejam. Seja cantando, dançando, se apresentando profissionalmente ou até mesmo por diversão e prazer. A motivação é uma só: expressar a liberdade e se sentirem realizadas em poder mostrar a felicidade, outrora reprimida pelo preconceito.

Luna Lion durante a preparação da maquiagem. IMAGEM: Manoel Cândido

As horas em frente ao espelho, os saltos extravagantes, perucas chamativas, humor refinado e muito glittler anunciam que “você pode ser o que você quiser”. Ao colar os cílios, o brilho nos olhos ressaltam a expectativa cultivada no coração pronto a radiar no palco da vida, impulsionando a coragem para enfrentar os desafios e confrontos impostos pela sociedade. Elas só querem fazer o show e nos divertir. 


A paixão em se montar apareceu em suas vidas de forma inesperada, ambos em situações diferentes. Foi através de alguns amigos que Luna conheceu o famoso reality show de Drag Queen, RuPaul’s Drag Race, que mostra uma competição para encontrar a melhor drag dos EUA. A partir daí surge o desejo de se transformar em outra pessoa, uma totalmente fora de sua realidade.

fui para uma festa de peruca e lingerie”.

Já segundo Aya a oportunidade de entrar nesse universo se deu pelas peças teatrais da escola, onde interpretava personagens femininas durante o ensino médio. Depois disso, nunca mais parou de se montar para ir a festas e eventos.

IMAGEM: Divulgação/instagram

Por falar em reality show, após o sucesso da série norte americana que teve 12 temporadas e ficou mais de 10 anos no ar, esse ano estreia em novembro aqui no Brasil o programa “Nasce uma Estrela”. Trata-se de um reality 100% brasileiro e será produzido pela Netflix. A produção contará com a participação de pessoas conhecidas do público nacional e que já possuem uma legião de fãs, sendo as drags Gloria Groove e Alexia. 

Alexia e Gloria Groove. IMAGEM: Divulgação/instagram

Perguntamos as nossas entrevistadas quais foram os momentos mais marcantes que vivenciaram ao se montarem, elas enfatizam o quanto é gratificante a reação das pessoas ao verem algo diferenciado em seu cotidiano. Muitos pedem fotos, se impressionam com o tamanho do cabelo e com a maquiagem. Luna conta que na sua primeira montagem as pessoas fizeram várias perguntas como “Quem é você? Você se monta há muito tempo? Você mora onde?”. Para elas, a sensação de fazer um show ou ir para as festas vestidas de Drag Queen é prazerosa, pois perdem o medo e a timidez ao pisar em um palco para fazer uma performance. Aya diz que fazer a arte é um momento ímpar, é dar o melhor para aqueles que o assistem. 

O processo de produção da maquiagem pode durar cerca de 3 horas

Em nosso cenário brasileiro, a dificuldade e o preconceito diante dessa realidade vêm se intensificando gradativamente, inclusive na cidade de Campina Grande/PB, onde o espaço cedido a esta arte se torna pequeno e bastante discriminado até mesmo pelo público LGBTQ+. Luna expõe que os xingamentos e piadas ofensivas são inúmeros quando estão montadas e que até chegou a ser agredida fisicamente quando estava com trajes masculinos. Aya comenta que foi atacada por três meninos.


Focaram principalmente em mim, mas também agrediram outro amigo (...). Só senti a pancada e caí no chão e daí veio os três pra cima, sorte que tinha policiais por perto, ajudaram, se não acho que não estaria nem aqui hoje”, relatou.

O preconceito interno na comunidade LGBTQ+ são alguns pontos que estão preocupando os movimentos. Em situação ao convívio com a classe, Aya e Luna ainda sofrem preconceitos no próprio ambiente, principalmente quando se trata de relacionamentos afetivos, isto porque muitos não as aceitam pelo fato de fazerem parte da arte drag, devido à exposição. Além disso, citam críticas feitas como, por exemplo, “não sabem andar de salto”.  

Luna conta que estava em uma festa, montada, se divertindo com seus amigos, bebeu um pouco a mais e acabou sendo motivo de chacota. Algumas pessoas aproveitaram a situação dela e tiraram fotos com o intuito de menosprezá-la. As imagens foram compartilhadas em alguns grupos de conversas das redes sociais acompanhadas com piadinhas e até montagem, os famosos memes.


Então é um pessoal que fala de toxidade, mas a gente aplica com a mesma medida, de certa forma”, afirma Aya.

Ao indagarmos sobre o preconceito no âmbito familiar, as drags contam que suas famílias são muito tradicionais, respeitam, porém não aceitam ou até mesmo, seguem a linha de que “você paga suas contas, é maior de idade, então você faz o que você quer da vida”.  “Me respeitando é o que vale”, diz Aya.


Para superar todos estes percalços, elas mantêm um discurso pautado na liberdade de suas escolhas e na felicidade que isso traz. Aya dá um conselho para quem deseja ser transformista. “Se você se vê na arte e se você quer se expressar, expresse quem você é e faça isso porque é libertador”. Luna complementa, “siga os seus meios, estude e não ligue muito pra opinião das pessoas porque as elas nunca vão lhe apoiar, nunca vão querer ver você no topo, vão sempre querer ver você abaixo delas”, disse.

A problemática do preconceito sofrido há anos está evidenciando diversos problemas sociais enraizados na sociedade, como a violência e a opressão de grupos como os LGBTQ+. A psicóloga Rute Diniz (23), que atua na área de psicologia clínica, menciona que o ponto chave que contribui para a maximização do preconceito e de todas as consequências que ele traz para o público LGBTQ+, é a desinformação.


A informação é a base de tudo, a gente vem de uma construção histórica que diz que isso é errado por várias vertentes religiosas. Quando não existe informação, tudo se torna mais propício a dar errado”, expõe.      

                     

Rute ainda aborda sobre o preconceito entre os próprios membros da comunidade LGBTQ+. Ela entende tal questão como fruto e consequência de uma constituição histórica, na qual a masculinidade deve ser intacta, seja ela na forma de agir, falar de se vestir. “Atendi um paciente que não gostava de ser rotulado como gay, porque o termo gay para ele era muito pejorativo, indicando feminilidade”, complementa. A psicóloga, então, frisou que tal comportamento poderia reforçar o preconceito de outras pessoas que não faziam parte da comunidade LGBTQ+. 


Júnior Oliveira (23), estudante de filosofia, acredita que o “universo drag vem ultrapassando o que se pensava dele anos atrás”, e que vem ganhando mais espaço. Diz ainda que vê com bons olhos a comunidade Drag e que o olhar do cristão deve ser sempre o de acolhida. Perguntamos qual seria sua reação se alguém próximo, como um irmão, se montasse.


Não seria motivo de escândalo, e acho que para ninguém deveria ser. Quando minha irmã teve a ousadia de me dizer que era lésbica, não a disse que ia continuar amando-a. Eu sempre amei e ponto, não existe um corte no amor”, complementa.

Para o músico Valdo Veloso (48), toda a arte feita de forma saudável agrega. Ele conheceu a arte de transformistas através de filmes e chegou ver um show pessoalmente. Quando indagado sobre a possibilidade de um dos três filhos homens se tornar drag, é direto ao afirmar que seria uma surpresa. Pontua que é um pai observador e que já teria percebido algo se fosse o caso. Diz ainda que se um dia algum deles namorassem uma drag, iria ter que se adaptar de alguma forma, pois seria surpreendente. 




CRÉDITOS

Pauta: Geisy Mirela.

Produção: Geisy Mirela; Manoel Cândido.

Imagens: Manoel Cândido; Geisy Mirela, Rayssa Mota e Arthur Nunes.

Transcrição: Arthur Nunes.

Editores: Geisy Mirela e Rayssa Mota.

Supervisor: Manoel Cândido.


EM TEMPO: Reportagem desenvolvida para a disciplina de Técnicas de Entrevista e Reportagem. Professor: Bráulio Nobrega. Outubro de 2020.


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