• Manoel Cândido Nogueira

Rostand: "São duas paixões, difícil de falar... Sei não"


Rostand Melo - FOTO: arquivo pessoal

Rostand é jornalista e professor de comunicação. Doutor em Ciências Sociais (UFCG/2015), mestrado em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB/2010) e graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo (UEPB/2007). Leciona as disciplinas na área de Fotografia e Fotojornalismo na UEPB. Coordena os projetos "Luz Negra", "Coletivo F8" e é integrante do grupo de Pesquisa em Jornalismo e Mobilidade (MOBJOR) e o grupo de Pesquisa de Desenvolvimento em Fotografia (GPDF).

ENTREVISTA

O senhor tem uma vida bastante corrida, é professor universitário e integrante de vários projetos. Queremos saber se o Rostand tem uma vida social ativa? 

Na pandemia todo mundo está com uma vida social um pouco mais restrita, mas eu tenho sim, a gente precisa disso para poder se manter produtivo durante a semana, para manter a saúde mental e ter esse momento de desliga. Eu tento adotar essa estratégia no fim de semana: desligar geral, sair um pouco das redes sociais, porque sempre acaba vendo alguma coisa relacionada à profissão, ao trabalho e acaba misturando vida pessoal e trabalho. Tento manter esse espaço para a vida pessoal: lazer, diversão, a família e os filhos, claro que com a pandemia, isto está dentro de casa e nas telas, enfim, tento manter essa rotina de ter um cantinho/momento para mim. 

Rostand e um dos seus filhos. FOTO: redes sociais

Programação favorita do final de semana/feriado? 

Em situações normais seria realmente sair com meus filhos, com a família, curtir um show, curtir uma música. Agora isso está meio que virando Netflix, filme e lives.  Mas em situações normais, situações que possam promover o encontro, então essa seria minha opção principal. Com quantos anos você se formou? 


Me formei com 22 anos na graduação, já fui direto para o mestrado [e depois o] doutorado. Defendi o TCC em dezembro, em janeiro abriu a seleção, em março já estava entrando para as aulas [do mestrado], foi uma coisa atrás da outra.  Há quanto tempo lecionou na UEPB? 

Assim, nessa brincadeira de dar aula, estou desde agosto de 2009. Então completei 11 anos de docência (não conta pra ninguém não, risos), mas já estou há 11 anos em sala de aula. Teve um intervalo do doutorado, eu terminei o mestrado e comecei a dar aula. Comecei a dar aula com 23 anos e se eu não me engano estava terminando o mestrado. 

Como ocorreu o ingresso na docência? E onde tudo começou?

  Meu interesse por pesquisa e docência veio com o projeto de iniciação científica. Fui orientando da iniciação científica com a professora Iolanda e foi isso que me despertou o interesse de tentar mestrado, de tentar pesquisa, de dar aula e por aí vai... Comecei no curso de publicidade da CESREI, eu não fui direto para Jornalismo. Já estava em outra área e eu dava disciplinas teóricas que a gente chama da grade comum. [As disciplinas] são comuns à Publicidade e Jornalismo, no caso a Teoria da Comunicação e Comunicação Comparada. Comecei a dar aula por ali, depois fui pra UFCG também com aulas mais vinculadas essa área de Sociologia da Comunicação que é a área da minha Pós, e eu entrei na UFCG logo depois que eu terminei o doutorado. Aí na UEPB eu entrei pra área fotográfica, então o ensino de fotografia na minha trajetória [surge] com a UEPB. O que é a docência para o senhor? 

É uma experiência de troca muito importante. Eu acho que a gente vem de uma geração de pessoas que, ou foram meus professores ou se formaram junto comigo, ou também estão se tornando professores que cada vez mais tem tentado quebrar essa coisa de ensino aprendizagem como hierarquia, [ou seja,] como professor que sabe tudo e “tá” transmitindo conhecimentos... Eu vejo muito mais como a situação de troca que a gente também aprende muito, se força a melhorar porque a gente deseja passar o melhor para o outro e que as dúvidas e questionamentos [dos alunos] nos fazem também, muitas vezes, ir para caminhos que a gente não imaginava.

Como aconteceu o processo do senhor com o ramo da fotografia? 

Não sei se dá pra dizer que a fotografia foi o motivo da entrada no curso de jornalismo. O fato de já gostar de ler, também a própria questão de acompanhar TV, isso obviamente influencia. A internet não era tão forte quanto é hoje, mas quando entrei já era uma influência, a fotografia estava ali com uma linguagem que dialogava com o campo do jornalismo, de mídia que já me interessava, mas confesso que no primeiro momento não era o interesse inicial.  Me lembro quando eu fiz o curso, a minha turma ainda estava um pouco na migração do analógico para o digital, então o próprio curso estava mudando muito em relação a isso 

A fotografia então se tornou um sonho ao longo do tempo? 

Fotografia foi primeiramente uma paixão, mais como hobbie. Antes da própria Universidade, eu costumo dizer que quando eu ganhei de presente uma câmerazinha analógica, guardo ela sempre por perto, tá quebradinha aqui embaixo. Ganhei ela quando tinha 12 anos e não era necessariamente visto como uma profissão obviamente nesse momento. Entrei no curso e fui atuando em outras áreas. Ainda como aluno, fui estagiário em produção de TV e em assessoria de imprensa, com isso, a fotografia foi aparecer pra mim como algo de interesse profissional nessa experiência em assessoria de imprensa, tanto ainda na graduação, quanto depois de já formado. A fotografia foi ganhando um olhar mais profissional a partir da  dessa atuação. 


Primeira câmera fotográfica de Rostand. FOTO: Arquivo pessoal

Quais os momentos mais marcantes que você vivenciou na fotografia?

Eu já fiz algumas fotos em assessoria. Comecei a experiência no SESC, a gente fazia mais eventos culturais, então eu tinha a possibilidade de fotografar a peça de teatro do teto, era uma viagem, você em um espaço lateral e ao mesmo tempo algumas peças me marcaram muito. Tem uma peça que veio pra cá chamada: Gota D'água, que era belíssima e eu fotografei de cima. Mas a fim de marcar da interação com as pessoas, acho que são as vezes que eu fotografei em protestos, nas marchas feministas e eventos políticos. 

Qual o seu melhor clique? É possível definir algum desses eventos que o senhor cobriu?


Se for o melhor clique em situação pessoal, eu vou falar das fotos que eu faço dos meus filhos e, isso aí seria de fato um clique pra vida.

Tem uma foto especial de protesto que eu até uso em sala de aula que, particularmente, gosto muito. É uma foto da Marcha das Vadias, de uma mulher que fez uma pintura no peito, e eu estava fotografando e ela posa pra mim mostrando. E eu gosto muito daquela foto pela espontaneidade que ela tem, apesar de ser uma coisa que durou [apenas] 5 segundos. Não troquei nenhuma palavra com aquela pessoa, mas consegui interagir pela câmera.



Se tivesse que escolher, um dia, entre fotografar e lecionar, qual escolheria?

São duas paixões, difícil de falar... Sei não (risos). Mas acho que não escolheria não, ia tentar ficar com as duas até onde desse. São formas diferentes “da gente” se expressar. [E] assim, quando eu “tô” lecionando, eu mais acompanho a produção de vocês do que fotografo e esse tipo de orientação ou até em relação ao conteúdo abordado, acabo fotografando menos do que se eu tivesse naquele lugar como fotógrafo, de fato. [Já] a profissão de professor tem o lado de fora da sala de aula que não é tão interessante quanto à sala de aula. Tem a parte burocrática de relatório, parecer, caderneta, sistema... E a fotografia talvez ela seja mais divertida no sentido que ela não “tá” presa a esse aspecto mais burocrático de nota, avaliação e relatório. Mas, como disse, são paixões diferentes. A sala de aula para mim é apaixonante e a fotografia também.

Cite três referências sua enquanto fotógrafos? Por que eles?


Poderia citar alguns nomes conhecidos e famosos, mas eu acho que seria bacana citar duas pessoas que são referência para mim e muito mais também por eu ter convivido com elas.


São o Leonardo Silva e o Nicolau de Castro que foram fotógrafos do Jornal da Paraíba, onde atuei quatro anos e onde eu aprendi muito com eles.

Minha passagem no Jornal da Paraíba foi como repórter de texto, não como fotojornalista, mas eu tive oportunidade de aprender convivendo com dois nomes que fazem a História Fotojornalismo em Campina há 40 anos no caso Nicolau e, eu acho que 30 anos no caso de Leo. Então eu poderia citar Sebastião Salgado, Walter Firmo, esse povo mais famoso, mas eu acho importante valorizá-los e são pessoas com quem eu convivi e de certo modo também influenciaram muito nessa paixão e interesse pelo Fotojornalismo. Qual o melhor horário para fotografar?

Antigamente tinham essa história da “Hora de Ouro” [era no] começo da manhã ou fim de tarde. Aquela história dessa luz mais quente lateral, mas eu acho que isso varia muito, depende muito do teu interesse e do tema da tua fotografia. À noite é ruim pra fotografar? Tecnicamente é mais difícil fotografar sem luz, mas vai depender do teu estilo, do teu tema e pode ser justamente nesse horário que você vai colocar um flash. Acho difícil a gente indicar um horário melhor, geralmente, sugere que evite o meio-dia [por causa da] luz dura e obviamente à noite pela falta de luz, mas assim não tem proibição. 

Você se baseou ou ainda se baseia em algum artista?

Mais uma vez eu vou pelo caminho de não citar alguém famoso... Eu vou citar alguém que tem um trabalho interessante e eu tive a oportunidade de participar de um workshop com ele que foi o fotógrafo de Pernambuco chamado Francisco Cribari. [Ele] tem o estilo [dele], não é só fotografar tecnicamente, mas o jeito de interagir com as pessoas me inspirou muito. Como é a sua didática e como o senhor conseguiu chegar até ela para satisfazer, de certa forma, a maioria dos alunos? 

Assim, quando a gente começa a dar aula, eu acho que aconteceu comigo quando eu comecei... Você ainda está muito naquela coisa de estar preso àquela figura do professor como uma figura de autoridade, você quer impor uma forma de fazer e aos poucos fui quebrando isso. Fui constituindo a forma de dar aula, e é claro que você vai encontrando uma linguagem com o decorrer do tempo, mas acho que a principal mudança foi essa, foi de “botar” na minha cabeça que a figura do professor tem naturalmente a ideia de uma figura de autoridade na sala de aula, mas que essa autoridade não tem que ser algo imposto, pelo menos na minha perspectiva que você crie uma ideia do que você tem que fazer e o que eu “tô” pedindo pra você fazer. “Por que SIM? Só porque eu quero?” Não é assim... A experiência em sala de aula tem que se tornar relevante para o aluno, o aluno vai aderir ou não aquela disciplina, atividade, teoria se ele considerar que aquilo é relevante para ele de um modo ou de outro. 



O senhor tem algum exemplo de como “não” agir como professor e algum que lhe inspira? 


Tenho sim, eu não vou dizer o nome, não é da UEPB (risos)... Já tive professores, inclusive na pós-graduação que se olhar, particularmente, admiro muito pela formação que tem, mas que, às vezes, na relação da sala de aula acaba caindo na armadilha da ideia da hierarquia...

Aquele professor que não espera você nem fazer uma pergunta e já olha com a cara atravessada como se dissesse: “por que você está perguntando isso?”, eu acho que não é esse o papel [do professor]. É muito melhor quando você consegue estimular que as pessoas estudem ou pratiquem, façam um pouco também a seu modo, valorizando o lugar de fala de cada um, valorizando a experiência de vida de cada um e você acaba tendo algo desse tipo. 


Matéria: Manoel Cândido; Rayssa Mota; Geisy Mirela e Arthur Nunes.

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