• Manoel Cândido Nogueira

13,5 milhões de "Pretas": uma família que retrata bem o país atual


Preta e parte de sua família. Imagem: Manoel Cândido

Algumas famílias escondem muita coisa aos olhos dos “de fora”, como elas mesmas chamam aqueles que não fazem parte de seu convívio diário. Esconder a sua simplicidade é até algo normal por causa da vergonha que muitos sentem. Quase ninguém gosta de mostrar a sua casa, muito menos quando é bem simples. Não é o caso de Josineide Pessoa (30), a Preta, como é chamada.


Em nossa caminhada em busca de belas histórias para compartilhar, nos deparamos com uma lá no sertão da Paraíba, mais precisamente na cidade de Piancó-PB. Às margens da PB-342, que liga a cidade piancoense à Coremas-PB, na zona rural, encontramos a nossa história, simples, mas cheia de riquezas incontestáveis.


Mesmo diante de tantas adversidades da vida, Preta não deixa de sorrir. Sua família é composta de 3 filhos ainda pequenos. Seu marido, Francisco de Assis, com seus 38 anos, ou simplesmente Tico, como é chamado pelos mais próximos, não tem renda fixa. Ele é agricultor. Trabalha por dia, quando alguém precisa de um trabalhador, ele vai. A diária é em torno de R$: 50 reais “a seca”, isto é, o empregador não dará lanche e nem almoço, ficando incluído no seu pagamento.


O primogênito e a caçula da família. Foto: Manoel Cândido

A incerteza na vida deles é grande. A única renda fixa da casa é o Bolsa Família, fato marcante e presente em milhões de outras famílias por todo o Brasil. Sustentar três filhos e eles com R$: 212,00 (duzentos e doze reais) não é fácil, como conta a chefe da casa.

Ela ainda fala que uma das maiores dificuldades que enfrentam é de cunho financeiro. Não poderia ser diferente. Quem consegue manter uma casa com 5 pessoas com uma renda de um pouco mais de R$: 200,00 (duzentos reais)?. É difícil, para não dizer impossível.

Segundo a Caixa, só podem ser beneficiados com o programa, famílias que estejam em situação de pobreza, cujo salário pode variar entre R$: 89,01 (oitenta e nove reais e um centavo) e R$: 178,00 (cento e setenta e oito reais) por pessoa. As que estão em situação de extrema pobreza, com uma renda de até R$: 89,00 (oitenta e nove reais) mensais por pessoa, também podem ser beneficiadas. O cadastro é feito pela Prefeitura da cidade onde residem.


Ao dividirmos o único valor certo que a família recebe mensalmente, temos a quantia de R$: 42,40 (quarenta e dois reais e quarenta centavos) por pessoa. Muito abaixo dos R$: 89,00 (oitenta e nove reais) previstos pelo governo referente as pessoas que estão em situação de extrema pobreza.

Seu marido, vez ou outra, consegue um serviço, mas tem semana que só consegue trabalhar um dia. No momento de nossa visita, inclusive, ele tinha saído logo cedo em busca de trabalho. Tico, nem pode pegar mais peso, ele já fez uma cirurgia de hérnia há pouco tempo, mas não tem escolha. O trabalho braçal é a única forma que ele tem para faturar uma grana extra, mesmo que sua saúde não o permita fazer. A necessidade de alimentar os filhos é maior do que suas dores e limitações.


No fogão de lenha, duas panelas ferviam no fogo. A temperatura ali era tão quente quando o sol ardente que está lá fora. Arroz e feijão era o que tinha para aquele dia. O peixe, pescado no dia anterior, também acompanharia a refeição, mas ainda estava por “tratar” como eles chamam o procedimento de preparo do peixe para o seu cozimento.


A alegria de ter comida garantida pro almoço. Foto: Manoel Cândido

Preta não terminou os estudos, cursou apenas até a 5ª série. Ela relatou para a gente que se arrepende muito de não ter conseguido continuar nos estudos, mas que a vida não era fácil, nunca foi. Já Tico mal sabe as letras, fez só até a 1ª série, como contou sua esposa.


O caminho dos pais parece não estar sendo trilhado pelos filhos do casal, mesmo enfrentando inúmeras dificuldades. Conta Preta: “eles estão na escola”, se referindo ao fato de que estão matriculados em uma Escola da zona rural. Todos os dias o ônibus escolar passa logo cedo na porta de casa. Às 06h30min os meninos já têm que estar prontos para esperar o transporte. Por volta das 11h30min o mesmo ônibus retorna e deixa os filhos de Preta no local onde os pegou mais cedo.


A filha primogênita da família é a Gabrielly, tem seus 11 anos e está cursando o 5º ano. Já Armando, de 9 anos, está no 2º ano, bem abaixo do desejável para a sua idade. Enquanto isso, a filha caçula deles, Anny Clarice, de apenas 2 anos, não ingressou no meio acadêmico ainda.


Na casa de parede e chão de barro, muita coisa chamou nossa atenção. O olhar certeiro do menino parecia estar atento a cada passo que a gente dava. Seus olhos, grudados na lente de nossa câmera, parecia se entrelaçar na curiosidade de quem nunca havia visto um objeto daquele de tão perto. Não sobrou espaço para vergonha alguma.


Gabrielly não se comportou como o seu irmão. Acuada e com vergonha, pouco falou o tempo todo em que estivemos lá. Foi uma luta conseguir algumas fotos com a menina. As poucas que conseguimos foram fotos pousadas ao som do pedido da mãe: “vai, Gabrielly, deixa de ser tímida, mulher". A pequena Clarice mal sabia o que se passava a sua volta e continuou a brincar com um pedaço de retalho de pano, juntamente com o irmão.


A sala da casa tem apenas uma estante amarela, uns objetos decorativos e uma TV de tudo que nem funciona mais. Na cozinha, uma geladeira que mal fecha a porta de tão desgastada que está, um fogão de lenha e umas caixas para guardar suplementos. No quarto, uma cama de casal e um guarda-roupas revirado. Tão revirado como as incertezas dos dias para eles.



Em meio a tanta conversa, nos deparamos com um balde com alguns pescados dentro. Um dia antes, Tico havia pescado, tinha peixes para o suprimento deles pelos próximos 3 ou 4 dias. Não era muita coisa, mas havia uma certa conformidade que a “mistura” do almoço estava garantida para os meninos.


A falta de dinheiro suficiente para o suprimento da casa não é apenas uma dificuldade que eles enfrentam, pelo contrário, é apenas mais uma. A família sofre com a falta de coleta de lixo e saneamento básico. As necessidades são feitas “no mato”.



A água não chega na torneira, que, aliás, nem existe lá. Toda a água da casa é cedida por um vizinho que mora a cerca de uns 500 (quinhentos) metros da casa do casal. Lá há um poço e eles pegam, diariamente, a quantidade de água suficiente para beber, lavar seus utensílios e para suas necessidades de higiene pessoal.


Tico e sua família fazem parte de um levantamento preocupante. Segundo o IBGE, até 2018 cerca de 56,2% não possuíam esgotamento sanitário em suas residências, o equivalente a mais de 29,5 milhões de brasileiros. Mas não é só isso.


De acordo com o último levantamento do IBGE (2018), 13,5 milhões de pessoas não possuíam água encanada em suas residências, isso representa cerca de 25,8% da sociedade do país. Já 21,1% (11,1 milhões) não são contemplados com coleta de lixo em suas casas.
O Brasil ainda é um país bastante desigual.

Há centenas, milhares, milhões de Pretas por esse país. Muitas delas são esquecidas pelo poder público. São ignoradas pelos que ali estão ao seu redor. Mas ainda existem pessoas decididas a ajudar. Preta contou que sempre recebe ajuda de alguns familiares e de amigos mais próximos. Falou que sem eles suas dificuldades poderiam ser ainda mais cruéis do que já são.


Matéria: Manoel Cândido e Rayssa Mota

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